Semaglutida: aumento nas notificações aos centros de intoxicação significa que o medicamento ficou mais perigoso?
Estudo publicado no Journal of Medical Toxicology mostrou aumento nas notificações envolvendo semaglutida após sua ampla utilização. A maioria dos casos decorreu de erros de administração e teve evolução leve. O estudo reforça a importância do uso com acompanhamento médico.

Semaglutida: aumento nas notificações aos centros de intoxicação significa que o medicamento ficou mais perigoso?
Nos últimos anos, a semaglutida tornou-se um dos principais tratamentos para obesidade e diabetes tipo 2. Com a expansão do seu uso em escala global, também aumentou o número de notificações relacionadas ao medicamento nos centros de controle de intoxicação.
Um estudo recente publicado no Journal of Medical Toxicology analisou mais de 10 mil notificações envolvendo agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RAs) registradas no National Poison Data System (NPDS) dos Estados Unidos entre 2012 e 2023. Após a aprovação da semaglutida para tratamento da obesidade em 2021, observou-se um aumento significativo dessas notificações, sendo a semaglutida responsável pela maioria dos casos no período mais recente. (DOI)
Mas esse aumento significa que o medicamento ficou mais perigoso?
O que mostrou o estudo?
Pesquisadores da Universidade do Texas em San Antonio analisaram todas as exposições aos agonistas do receptor de GLP-1 notificadas ao NPDS antes e após a aprovação da semaglutida para obesidade, em julho de 2021.
Foram identificadas 10.033 notificações, sendo 3.113 antes da aprovação e 6.920 após. A análise temporal demonstrou uma aceleração significativa das notificações relacionadas à semaglutida, acompanhando sua rápida adoção clínica. (DOI)
É importante destacar que o estudo avaliou notificações aos centros de intoxicação, e não a incidência de eventos adversos entre todos os pacientes que utilizam o medicamento.
Por que as notificações aumentaram?
A principal explicação é o crescimento expressivo do número de pessoas utilizando agonistas do GLP-1, especialmente a semaglutida, após sua aprovação para tratamento da obesidade.
Com milhões de novas prescrições, é esperado que aumentem também os erros de administração, dúvidas relacionadas ao uso e notificações de eventos adversos.
Os autores observaram que boa parte dos casos esteve relacionada a erros terapêuticos, incluindo administração incorreta, doses inadequadas e confusão na utilização do medicamento. (DOI)
Quais foram os problemas mais frequentes?
Os eventos mais frequentemente relatados envolveram:
Erros de dose;
Administração incorreta;
Exposição acidental;
Eventos adversos gastrointestinais.
Os sintomas mais comuns incluíram:
Náuseas;
Vômitos;
Dor abdominal;
Diarreia.
Na maioria das notificações, os desfechos foram classificados como leves ou moderados. (DOI)
Casos graves são comuns?
Felizmente, não.
Embora tenham sido registrados casos graves e necessidade de atendimento hospitalar em uma parcela dos pacientes, esses episódios representaram uma minoria das notificações.
Os eventos mais importantes estiveram associados principalmente a superdosagem, erros de administração e uso inadequado do medicamento, e não a um novo problema de segurança relacionado à semaglutida. (DOI)
O que esse estudo muda na prática?
O estudo reforça que o crescimento do uso dos agonistas do GLP-1 exige maior atenção à orientação dos pacientes.
Algumas medidas reduzem significativamente o risco de complicações:
realizar a titulação gradual das doses;
seguir corretamente a técnica de aplicação;
evitar automedicação;
utilizar medicamentos apenas sob prescrição médica;
manter acompanhamento regular durante todo o tratamento.
Conclusão
O aumento das notificações aos centros de controle de intoxicação não significa que a semaglutida tenha se tornado menos segura.
Na realidade, o crescimento acompanha a expansão sem precedentes do uso dos agonistas do GLP-1 após sua aprovação para tratamento da obesidade. A maioria das notificações esteve relacionada a erros de utilização e apresentou evolução favorável.
Quando prescrita de forma adequada e utilizada com acompanhamento médico, a semaglutida continua apresentando um perfil de segurança bem estabelecido e permanece entre as terapias mais eficazes para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. (DOI)
Referência
Miller J, Miller R, Varney SM, Han D. National Poison Center Trends in GLP-1 Receptor Agonist Exposures Following FDA Approval for Weight Loss. Journal of Medical Toxicology. 2026;22(2):275-285. doi:10.1007/s13181-026-01121-z. (DOI)